Sentir que o alimento fica parado, demora a descer ou exige várias tentativas para passar não deve ser considerado normal quando acontece repetidamente. O nome médico dessa dificuldade é disfagia. Ela pode surgir por inflamação, estreitamento do esôfago ou alteração dos movimentos que levam o alimento até o estômago. Em adultos com suspeita de disfagia esofágica, a endoscopia digestiva alta costuma ser uma etapa importante da investigação. [1]
Nem toda sensação de “bolo na garganta” é disfagia, e nem todo entalo começa no mesmo lugar. O padrão dos sintomas ajuda a decidir quais exames realmente respondem à dúvida clínica.
É engasgo, entalo ou sensação de bolo na garganta?
Engasgar ao começar a engolir, tossir quando bebe água, perceber a voz “molhada” depois de um gole ou sentir que o líquido vai para o caminho errado sugere dificuldade na fase inicial da deglutição, envolvendo boca e faringe. Essa é a disfagia orofaríngea e pode exigir avaliação clínica, fonoaudiológica e exames específicos da deglutição. [1]
Já a impressão de que a comida passou da garganta, mas ficou parada no peito sugere disfagia esofágica. Existe ainda o globus, sensação de algo na garganta, muitas vezes fora das refeições, sem dificuldade efetiva para a passagem do alimento. A localização percebida pelo paciente ajuda, mas não define sozinha onde está o problema. [1]
Entala só comida sólida ou também água?
Dificuldade predominante com alimentos sólidos pode sugerir redução do calibre do esôfago, como ocorre em anéis ou estreitamentos. Quando o problema envolve sólidos e líquidos desde o início, alterações da motilidade — os movimentos do esôfago — ganham importância no diagnóstico diferencial. [1,4]
Também importa a evolução. Uma dificuldade progressiva é diferente de episódios esporádicos há muitos anos. Adaptar-se continuamente, cortando a comida em pedaços minúsculos, evitando carnes ou bebendo líquido a cada garfada, pode esconder um sintoma que merece investigação.
Quando a dificuldade para engolir pode ser acalásia?
A acalásia é um distúrbio de motilidade no qual o corpo do esôfago perde o movimento propulsivo normal e a região de transição para o estômago não relaxa adequadamente. O resultado é aumento da resistência à passagem do alimento. Os sintomas clássicos incluem dificuldade para engolir sólidos e líquidos, regurgitação de alimento ou saliva, desconforto no peito e, em alguns pacientes, perda de peso. Tosse noturna ou episódios de aspiração também podem ocorrer. [5]
Ela pode ser confundida com refluxo porque ambos podem causar regurgitação e desconforto. A diferença é que, na acalásia, o problema central não é excesso de ácido: é a dificuldade de esvaziamento do esôfago.
A endoscopia é importante porque pode mostrar retenção de saliva ou alimentos, dilatação do esôfago e resistência na transição com o estômago, além de excluir estreitamentos e outras causas de obstrução. Entretanto, uma endoscopia pouco alterada não exclui acalásia em fase inicial. A confirmação costuma ser feita pela manometria esofágica de alta resolução, que mede as pressões e classifica a doença em subtipos. O esofagograma contrastado cronometrado pode complementar a avaliação do esvaziamento. [5,6]
O que é esofagite eosinofílica?
A esofagite eosinofílica (EoE) é uma doença inflamatória crônica do esôfago associada a uma resposta imunológica. Pode provocar entalos recorrentes e impactação alimentar. Um ponto importante é que o esôfago pode parecer normal na endoscopia e ainda assim apresentar EoE. [2,3]
Por isso, quando essa hipótese existe, podem ser necessárias biópsias — pequenos fragmentos da mucosa analisados ao microscópio — coletadas de diferentes níveis do esôfago. Histórico de doenças alérgicas aumenta a suspeita, mas não é obrigatório para o diagnóstico. [2,3]
Quando a endoscopia é indicada?
As recomendações europeias atuais colocam a endoscopia digestiva alta como exame central na avaliação da disfagia esofágica em adultos. Ela permite identificar inflamação, anéis, estreitamentos e outras lesões, coletar biópsias e, em situações selecionadas, realizar tratamento. [1]
Isso não significa que toda sensação vaga na garganta exija endoscopia. Primeiro é necessário entender se o problema ocorre na fase inicial de engolir ou depois que o alimento já entrou no esôfago. E dilatar o esôfago não é solução automática para toda disfagia: o tratamento depende da causa.
E se a endoscopia não mostrar a causa?
Uma endoscopia sem alterações relevantes não encerra obrigatoriamente a investigação. Persistindo a disfagia esofágica, a manometria de alta resolução pode identificar acalásia e outros distúrbios motores; o estudo contrastado do esôfago responde perguntas diferentes e pode ser complementar. [4–6]
Se o problema estiver na fase inicial da deglutição, exames específicos, como a videofluoroscopia, podem ser mais úteis do que repetir uma endoscopia digestiva convencional. [1]
Se for acalásia, onde o POEM entra no tratamento?
A acalásia pode ser tratada por diferentes estratégias, entre elas dilatação pneumática, miotomia cirúrgica de Heller associada à fundoplicatura e POEM (miotomia endoscópica peroral). A escolha não deve ser feita apenas pela preferência por uma técnica: depende do subtipo de acalásia, anatomia, tratamentos prévios, condições clínicas, preferência do paciente e experiência da equipe. [5–7]
No POEM, o endoscópio entra pela boca. O médico cria uma pequena abertura na mucosa do esôfago, forma um túnel na camada submucosa e realiza a miotomia, que consiste em cortar fibras musculares responsáveis pela resistência excessiva na junção entre esôfago e estômago. Ao final, a entrada do túnel é fechada endoscopicamente. Não há incisão na pele. O objetivo é facilitar a passagem do alimento; o procedimento não restaura os neurônios perdidos nem “cura” a motilidade normal do esôfago. [6]
A atualização da SAGES publicada em 2025 considera POEM e Heller com fundoplicatura alternativas para acalásia tipos I e II, dentro de decisão compartilhada, e favorece POEM no tipo III, em que existe componente espástico e uma miotomia mais extensa pode ser necessária. Essa preferência para o tipo III é baseada principalmente em opinião especializada e no conjunto das evidências disponíveis, e não significa que todo paciente deva receber POEM. [7]
Um ponto que não pode ser omitido é o refluxo após POEM. Como a miotomia reduz a barreira muscular na transição para o estômago e não inclui fundoplicatura, refluxo e esofagite podem ocorrer. A AGA recomenda acompanhamento para doença do refluxo após o procedimento, inclusive porque alguns pacientes podem ter alterações objetivas sem sintomas intensos. [6]
Quando o entalo é uma urgência?
Se a pessoa não consegue engolir nem a própria saliva, apresenta salivação contínua porque nada passa ou tem dificuldade respiratória após um alimento ficar preso, deve procurar atendimento de emergência imediatamente. Isso pode indicar obstrução esofágica completa ou comprometimento das vias aéreas. [1,8]
Mesmo quando a saliva passa, a persistência de alimento impactado exige avaliação urgente. Não tente empurrar o alimento com mais comida, grandes volumes de água ou receitas caseiras. A equipe de urgência decidirá se há necessidade de intervenção endoscópica e em qual momento. [8]
Dificuldade progressiva para engolir, perda de peso involuntária, anemia, sangramento, dor importante ao engolir ou episódios frequentes de alimento preso também justificam avaliação médica prioritária. Esses sinais não significam automaticamente câncer, mas mudam a urgência da investigação. [1]
O que contar ao médico?
Informe se a dificuldade ocorre ao iniciar a deglutição ou alguns segundos depois, se é maior com sólidos ou também aparece com líquidos, se já houve alimento completamente preso, se está piorando e se há regurgitação, tosse noturna, dor ou perda de peso. Leve endoscopias, biópsias e outros exames prévios, além da lista de medicamentos em uso.
O ponto principal
A disfagia é um sintoma, não um diagnóstico. A endoscopia pode encontrar causas estruturais e permitir biópsias; a manometria identifica distúrbios motores como a acalásia; e exames da deglutição avaliam problemas da fase orofaríngea. O melhor exame é aquele que responde à pergunta clínica correta.
Se a acalásia for confirmada, POEM é uma das opções terapêuticas modernas, mas a decisão deve considerar subtipo da doença, alternativas disponíveis e risco de refluxo. [5–7]
Atendimento e próximo passo
Já existe indicação médica de endoscopia? Entre em contato com a recepção do serviço onde o exame será realizado para esclarecer agendamento e preparo. Ainda precisa entender a causa dos entalos? Uma consulta permite direcionar a investigação antes de escolher o exame. Os canais institucionais atualizados estão no site profissional do Dr. Ricardo Fortes.
Conteúdo educativo para adultos. Não substitui avaliação individual nem atendimento de urgência.
Redator
Dr. Ricardo Fortes Monteiro de Castro — Gastroenterologia e Endoscopia. Formação no Hospital Felício Rocho.
Referências
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- Dellon ES, Muir AB, Katzka DA, et al. ACG Clinical Guideline: Diagnosis and Management of Eosinophilic Esophagitis. American Journal of Gastroenterology. 2025;120(1):31–59. DOI: 10.14309/ajg.0000000000003194. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39745304/
- Domingues G, Moraes-Filho JPP, Chinzon D, Delgado A; FBG advisors. Brazilian Gastroenterology Federation (FBG) Clinical Guideline: Diagnosis and Treatment of Eosinophilic Esophagitis in Adults and Adolescents. Arquivos de Gastroenterologia. 2025;62:e25079. DOI: 10.1590/S0004-2803.24612025-079. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41172433/
- Gyawali CP, Carlson DA, Chen JW, et al. ACG Clinical Guidelines: Clinical Use of Esophageal Physiologic Testing. American Journal of Gastroenterology. 2020;115(9):1412–1428. DOI: 10.14309/ajg.0000000000000734. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=10.14309%2Fajg.0000000000000734
- Vaezi MF, Pandolfino JE, Yadlapati RH, Greer KB, Kavitt RT. ACG Clinical Guidelines: Diagnosis and Management of Achalasia. American Journal of Gastroenterology. 2020;115(9):1393–1411. DOI: 10.14309/ajg.0000000000000731. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32773454/
- Yang D, Bechara R, Dunst CM, Konda VJA. AGA Clinical Practice Update on Advances in Per-Oral Endoscopic Myotomy (POEM) and Remaining Questions—What We Have Learned in the Past Decade: Expert Review. Gastroenterology. 2024;167(7):1483–1490. DOI: 10.1053/j.gastro.2024.08.038. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39425737/
- Calabrese EC, Kindel T, Slater BJ, et al. 2024 Update to SAGES Guidelines for the Use of Peroral Endoscopic Myotomy (POEM) in the Treatment of Achalasia. Surgical Endoscopy. 2025;39(7):4027–4037. DOI: 10.1007/s00464-025-11789-z. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40399617/
- Birk M, Bauerfeind P, Deprez PH, et al. Removal of Foreign Bodies in the Upper Gastrointestinal Tract in Adults: European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Clinical Guideline. Endoscopy. 2016;48(5):489–496. DOI: 10.1055/s-0042-100456. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26862844/
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